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05.01.2022

Marina Minha Guerreira

"Eu tenho uma doença autoimune rara, chamada Síndrome de Behçet, e demorei 10 anos para poder engravidar. Em dezembro de 2018 meu reumatologista disse que eu poderia engravidar, ele riu e disse, faça a poupança da in vitro, você tem menos de 2% de chances de engravidar naturalmente. 

Em fevereiro de 2019 eu estava com o meu teste positivo, com 14 semanas tive um pequeno sangramento, com 22 semanas minha doença veio com todas as suas forças. Era grave, e tive que iniciar um imunossupressor que fosse compatível com a Gravidez. No final da gravidez estava com pressão alta e havia engordado 26kg.

Com 36 semanas entrei em trabalho de parto, não tive dilatação, tomava anticoagulante todos os dias, tive que ir para a cesárea. Marina nasceu com 2.940kg e 46cm, praticamente um bebê a termo, mas logo já vi que tinha algo errado pela correria dos pediatras. Comecei a sentir uma dor de cabeça terrível, minha pressão estava a 20x13, as obstetras e o anestesista me apagaram.

Acordei no pós cirúrgico e tudo que eu queria era ver Marina, meu marido estava com ela, e minha mãe disse que ela estava só cansada, e precisava tomar um ar. Eram 23h, e eu mal tinha visto meu bebê, fui para o quarto, e não me deixavam ir a UTI neonatal, só no dia seguinte.

As 06h da manhã estava lá e recebi a bomba, Marina estava com síndrome de abstinência devido a medicação que eu tomava para a autoimune. Ela tinha tido convulsões e estava tomando fenobarbital. Eu me senti um lixo, eu senti que para sobreviver tinha condenado minha filha, eu não podia amamentar devido a minha medicação. Eu parei na hora com tudo, o que não foi uma boa ideia, porque entrei em um quadro agudo comprometendo meus rins, sistema nervoso, digestivo, mas eu achava que merecia essa punição.

Então veio um anjo, a psicóloga da UTI neonatal, ela disse que amamentar ou não, não seria mais ou menos mãe, e que aquela garotinha precisava da mãe dela. Então começou a rotina, entrar na UTI, se higienizar, colocar o EPI, e finalmente ver a coisa mais linda do mundo. Esperar o pediatra passar, ouvir, pesquisar, chorar. Olhar aqueles monitores rezando para não apitar.

Os barulhos da UTI perseguem a gente. Você se afeiçoa aos outros casais, aos outros bebês. A Marina ficou letárgica devido ao fenobarbital, mas o hospital só baixava a dose após um exame, a clínica não era soberana. Então com duas semanas Marina atestou positivo para uma superbactéria, comecei a pesquisar todas as chances de falsos positivos. Li diversos artigos, porque para tudo a equipe da UTI citava artigos. Não havia uma opinião clínica, e no fim sentia minha filha como um unicórnio sendo estudo de caso.

Na terceira semana a Marina teve uma infecção urinária, e ela sofria muito com os acessos venosos. Eu passava o dia lá em pé ao lado da incubadora, vigiando o acesso para não perder, a oxigenação e o monitoramento cerebral que me impedia pegar meu bebê no colo. Meu esposo ficou os 20 dias de licença lá comigo, depois fui sozinha.

Quando a fonoaudióloga me disse para comprar uma mamadeira para ela começar a treinar, foi inexplicável, ela ia sair. Já eram 25 dias, com 28 dias fomos para o quarto, mas lá começou outro pesadelo, os pediatras queriam uma cultura de urina, de urina colhida por sonda e não conseguiam. Minha filha gemia de dor, na sexta vez o espírito de Leoa tomou conta de mim. Avisei para a enfermeira que ela estava praticando lesão corporal, que não teria mais autorização de tentar qualquer sonda, e que se fosse necessário iria à Polícia e para à Justiça.

Ela quis se impor, peguei o celular e liguei 190, em menos de um segundo ela estava pedindo perdão. Eu mesma colhi a urina da minha filha no saquinho coletor e ela não tinha mais nada. Eram 22h e eu exigi a alta, após 34 dias levei minha princesa para casa, a Marina está com 6 meses, é linda, esperta, não teve sequelas físicas, mas tem medo de barulhos como apitos e medo de dormir. Eu acredito que a equipe que a atendeu queria o melhor, mas que ultrapassaram limites éticos, e muitos a tratam como só mais um. Foi duro, mas me fez experimentar o que é impotência, aprender a comemorar pequenas coisas como uma dieta aumentar 5 ml, e a ter fé. Por isso estudem muito a condições de seus pequenos, para poderem conversar com os médicos."

(Relato da mamãe Ana, enviado em 2020)

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