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Fim de ano na UTI neonatal

31/12/2019 Teresa Ruas, a filha Maitê, o marido Marcel e o filho Lucca (Foto: Arquivo pessoal)

As festas de final e início de ano são sempre muito esperadas por todos nós, seja para celebrar a vida, agradecer o ano que está terminando, aumentar as nossas esperanças ou fortalecer o vínculo fraterno e afetivo entre nossos familiares e amigos, não é mesmo? Portanto, passar o Natal e/ou a virada de ano novo em uma UTI Neonatal não é nada fácil. Lembro me como se fosse hoje dos dias 24/12/12 e 31/12/2012. Minha bebê prematura extrema, nascida com 23 semanas e 1 dia, estava lutando bravamente pela vida. Aquele Natal e aquela virada de ano novo teriam que ser celebrados de forma distinta: com a equipe e pais de UTI Neonatal.

Naqueles dois momentos festivos de 2012, a minha família ou, melhor, a minha nova família não seria composta por avós, tios, sobrinhos e irmãos. A minha família seria formada por todos aqueles que cuidavam da minha filha e todos os pais de UTI Neonatal que estavam vivenciando a mesma situação que eu e meu marido.

Aprendi nas minhas duas estadias em uma UTI Neonatal que um dos maiores presentes que toda mãe e pai de UTI ganham é justamente poder contar com o acolhimento de outros pais que vivenciam ou que já vivenciaram o que estamos passando naquele exato momento. Saber que existem realidades semelhantes à sua é uma forma muito concreta de suporte afetivo e de fortalecimento interno, pois não nos sentimos sozinhos e solitários. Poder conversar com outros pais sobre as mesmas dificuldades, instabilidades clínicas, procedimentos cirúrgicos, procedimentos invasivos, fases e etapas que os nossos filhos também passarão ou que estejam passando, com certeza é um dos melhores presentes de Natal e de início de um novo ciclo. Justamente, porque esse encontro com a realidade dos outros pais pode nos trazer calma, confiança, esperança e aumentar a nossa certeza de que é possível vencermos os desafios impostos pela prematuridade. Aquele sentimento de bem estar e alegria que o Natal em família pode nos oferecer, também pode ser sentido em uma UTI Neonatal nesses momentos de trocas e acolhimento entre os pais.

Lembro-me que ficava horas e horas ouvindo e procurando experiências de mães e pais que tiveram os seus filhos com menos de 25 semanas gestacionais e que haviam deixado relatos escritos em livros, no site do hospital e/ou em blogs. Conviver e entrar em contato com histórias tão semelhantes me acalentava o coração, além de ter a certeza de que aquelas mães estavam entendendo e compreendendo os meus sentimentos, os meus medos e as minhas angústias.

Quando alguma mãe me dizia pessoalmente, por telefone, por mensagem ou por e-mail que entendia o que eu estava sentindo, uma paz interior ocupava o lugar da ansiedade e do medo. O abraço, o olhar, o colo, as palavras, os conselhos e as orientações de pais de UTI Neonatal tinham, para mim e meu marido, um outro poder e significado. As palavras soavam mais reais, o olhar parecia mais verdadeiro, o abraço tinha uma outra sensibilidade e os conselhos e as orientações não eram dados apenas segundo as frequências probabilísticas da ciência e da neonatologia, mas segundo a força do afeto e da esperança.

No Natal e na virada de ano novo, a sala de mães, para mim, foi um local muito importante. Ali, recebi muitos acolhimentos e muitos abraços transformadores. Com uma simples troca de olhar, muitas mães já entendiam e compreendiam o que estava se passando no meu coração.

E mães de longa permanência, como eu, aprendem transformar esses encontros de acolhimento em potentes oportunidades, capazes de regenerar todas as nossas esperanças. São tão intensos e verdadeiros os acolhimentos que recebemos de outros pais, que os mesmos se transformam em eternos amigos. Eternos porque nos marcam mesmo. Choram com a gente, rezam pelos nossos filhos, acompanham os procedimentos cirúrgicos, se alegram com as conquistas e nos acolhem em qualquer lugar, como, por exemplo, no estacionamento do hospital. São eternos porque nos tornamos irmãos, não diante dos laços sanguíneos, mas diante de laços afetivos.

Passei o Natal, o Ano Novo e algumas outras datas festivas em uma UTI Neonatal. Como presente, convivi e conheci diferentes grupos de pais e que hoje fazem parte da minha vida e da vida dos meus filhos, em especial da vida da minha filha mais velha. Com esses pais pude consolidar amizades verdadeiras, justamente porque foram construídas diante da dor, do sofrimento e do afeto.

Se você está enfrentando a prematuridade nesse exato momento, desejo que saiba que as datas festivas podem e devem ser vividas em uma UTI Neonatal diante dos laços afetivos entre os pais e a equipe hospitalar. Sei o quanto é uma experiência muito difícil, mas que pode nos transformar em pessoas mais sensíveis ao sofrimento e a necessidade do outro. Aprendi que em momentos de dor, podemos sentir mais a força do afeto, da esperança, a robustez da fé, a delicadeza de um abraço, a sutileza de um olhar e a certeza de que é possível a VIDA, mesmo quando a batalha pela sobrevivência é intensa e longa.

E se você que está me lendo nesse exato momento, já passou por uma UTI Neonatal, tente reencontrar os pais e/ ou profissionais que compartilharam com você momentos de tristeza e alegria. Vivenciar o Natal ou o Ano Novo com pessoas que já fizeram a diferença em nossas vidas, com certeza é um grande presente com sabor de eterna gratidão ao que já passamos e vivemos, mesmo que a dor tenha sido extremamente significativa em nosso caminhar.

Um grande abraço, com felicitações e gratidão a todos os pais de UTI Neontal, em especial a todos que tive a honra em conhecê-los, Teresa Ruas, Marcel, Maitê Maria e Lucca.

por Teresa Ruas 

Fonte: Revista Crescer (notícia original publicada em 26/12/19).



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