• Parceiros oficiais:
  • Efcni
  • March of Dimes
Arraste para navegar

Acompanhamento psicológico nas UTIs neonatais: a arte da empatia e do cuidado integral

09/08/2019 O nascimento, a maternidade e a vida, apesar belas e emotivas experiências, não são o que pensamos.

Para o psicanalista inglês Donald Winnicott, cada ser humano traz um potencial inato para se desenvolver e amadurecer. Porém nos primeiros meses de vida e, a meu ver inclusive é indispensável, nos primeiros dias de vida a interdependência da mãe como facilitadora para a entrada do novo bebê em nosso ambiente é fundamental.

Neste momento se inicia o que Winnicott chama de HOLDING, do inglês sustentar. Estando a mãe em seu primeiro ou segundo filho, esta questão é eterna novidade para ambos. E talvez ao longo desta relação transformadora, crucial e eterna. Precisamos ser dependentes para nos tornarmos independentes.

As emoções e medos, sentimentos ambivalentes e confusos da mãe diante da chegada de um novo bebê são sempre esperados. Assim como o “Susto” do nascimento, tão bem descrito em “Nascer Sorrindo” pelo obstetra Frederic Leboyer, que compara a entrada da luz nos olhos do recém-nascido como uma potencial cegueira inicial, ou a primeira inspiração de oxigênio extra útero como a queima de uma tragada de cigarro em virgem pulmão.

O nascimento, a maternidade e a vida, apesar de belas e emotivas experiências, não são o que pensamos. Ou seja, a necessidade do conforto, do amparo e do cuidado com a mãe, para que esta possa cuidar, alimentar e sustentar afetiva e efetivamente seu bebê são indispensáveis e indiscutíveis, sejam pela família, pelas doulas, pelos psicólogos em pronto atendimento (prontidão) nos hospitais, ou pela equipe médica em geral.

Dada a cada caso sua interferência necessária e na UTI Neonatal não é diferente. Quanto mais intenso o cuidado, mais forte os laços entre família, equipe médica e de apoio são necessários. Tanto a mãe como o bebê estão em estado de fragilidade absoluta.
Fantasias tornaram-se pesadelos. O bebê gorducho e parecido com a mãe ou o pai, é magro, de baixo peso, prematuro, ou mesmo necessita de cuidados e interferências cirúrgicas em casos de má formação. O HOLDING está estruturalmente ameaçado. Não perdido, não rompido. Mas a capacidade de sustento desta mãe, desta família, nasce abalada.

Onde nos encontramos todos? Médicos, enfermeiros, técnicos, nutricionistas, psicólogos? Em minha opinião além de nossas funções especificas.

Nós somos o HOLDING, não somente do bebê, e talvez menos intensamente dele, mas sim de sua mãe para que esta desempenhe seu papel com algum conforto, do pai que visita a esposa e mãe e recebe orientações por vezes difíceis de compreender, do avô e da avó que esperam para ver o misterioso rosto que demora na janela, e fundamentalmente do irmão ou irmão que aguardam tanto a esperada companhia.

David Zimmerman, psiquiatra e psicanalista gaúcho recomendava que, se necessário, dançássemos a “dança dos sete véus” para cobrir a demanda que o paciente ou os pacientes nos solicitassem.

Durante minha estada nas UTIs de dois hospitais da capital gaúcha, esta frase sempre esteve em meu fazer. Se era preciso pedir ajuda para compreender um quadro clínico e traduzir termos médicos e científicos aos pais e a família este é o nosso objetivo no round. Se é necessária a intervenção de outro colega de área de apoio, nutricionistas, banco de leite, fisioterapeutas, entender e perguntar de suas funções e práticas para melhor informar esta família, é essa a nossa função.

Se, é iminente em hospitais públicos a conversa com colegas da área da assistência social, para que possamos trocar planos de ação para visitas e transporte facilitando contato mãe e filho, esta, também é nossa função.

Se, a mãe cansada na poltrona, não se alimenta e receia ir até o bar ou cantina e deixar seu bebê, sim, alcançar um sanduíche é nossa função.

Claro que facilitar a troca de informações e convívio entre famílias e mães em grupos neonatais, ou se solicitado um atendimento individual de intervenção em crise, sejam nossas funções técnicas, a vida na UTI neonatal é uma crise diária. Não técnica. É o trabalho com o inesperado.

E diagnosticar o silencioso pedido das famílias e das mães é em minha opinião nossa maior função. Nós somos o HOLDING de Winnicott, o sustentar inicial deste momento quase insustentável, e não importa como, onde e de que forma todo operamos.

Nosso dever como profissionais neste momento é de sustento. Alimento, emoção, alinhamento de comunicação, suporte e coluna vertebral onde ainda, por enquanto falta musculatura.
Temos um longo andar até a alta, até os desejados dois quilos, até as plenas funções restabelecidas.

E na UTI neonatal somos o berço, não somente de um bebê, mas fundamentalmente de sua mãe, que precisa de maturação, conforto e segurança para que possa novamente ter e dar à luz que lhe é restabelecida junto com sua passagem, desde que atenta e carinhosa por nossas mãos.

Sempre recomendei a meus estagiários que, mais que conhecimento técnico, tivessem pernas fortes para andar pelos corredores, tempo a perder e profunda empatia. Sem isso, não se ergue um sustento hospitalar e não se pratica a clínica em seu mais belo e amplo fazer.

Somos a maternagem impedida por um breve instante, e devemos estar literalmente a postos e em prontidão.

Nem que seja necessário “dançar a dança dos sete véus”.

Por Ana Luisa Schuck Guedes, especialista em psicologia hospitalar e consultora científica da ONG Prematuridade.com



Tem um bebê
prematuro?

Preencha nossos cadastro e ajude
a direcionar as ações da nossa ONG

Cadastre-se