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Prematuros na pandemia: histórias de mães e pais que viveram esse drama

28/11/2021 crescefr

Enfrentar o nascimento precoce de um filho é, por si só, um desafio indescritível. O que dizer, então, de quem passa por essa situação no cenário repleto de restrições que a covid-19 trouxe? Aqui, você conhece histórias de mães e pais que, resilientes, saíram mais fortes pela porta do hospital.

Por Camila Saccomori para Revista Crescer

Na foto, ao lado: Gripada, mas negativada para a covid-19, Ariane Aguiar ficou uma semana longe do filho, Luan (Foto: Ana Meinhardt/Cegonha Imagens)

Higienizar as mãos com frequência, usar máscara, evitar aglomeração. Tudo que o mundo adotou para conter a pandemia sempre foi um rígido protocolo para mães e pais de bebês prematuros. Isso não significa que nada mudou na vida das famílias com bebês que nascem antes do tempo. Ao contrário: a covid-19 trouxe novas adversidades para a prematuridade, com exigência de cuidados ainda mais rigorosos. Desde o período da internação na UTI neonatal, com restrição de visitas, até o esperado momento da alta, a pandemia impacta cada etapa.

Aliás, as ameaças começam já na gestação. Grávidas têm mais probabilidade de desenvolver formas graves do novo coronavírus, comparando com a população total de mulheres, alertou ainda em 2020 o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês). E também apresentam maior risco de parto prematuro, “ainda que a relação de causa-consequência não esteja plenamente provada ou estabelecida”, explica o obstetra Edson Vieira da Cunha Filho, chefe do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Moinhos de Vento (RS).

Decorrente ou não de contágio pelo vírus, um parto antes da hora durante a pandemia trouxe obstáculos extras para bebês, suas famílias e todas as equipes de saúde envolvidas. É preciso controlar qualquer chance de contaminação dos prematuros, pela vulnerabilidade imunológica, e manejar os desgastes emocionais de todos. Um equilíbrio para garantir a integridade da saúde física dos bebês sem comprometer a saúde mental da família.

Máxima proteção

Hospitais rapidamente redefiniram fluxos e estruturas para proteger a maternidade, relata a psicóloga Patrícia Bader, coordenadora dos Serviços de Psicologia da Rede D’Or São Luiz, formada por mais de 50 hospitais em nove estados. Reduzir a circulação dentro e fora das UTIs neonatais era essencial. “Então, observamos um grande esvaziamento, uma profunda solidão. A prematuridade, antes visível nas portas, nos corredores, aquela presença dividida com outras famílias na mesma situação, sumiu. Um isolamento dentro do isolamento.”

Visitas até então liberadas – como avós e irmãos do bebê – foram proibidas. Mas o que não se imaginava é que, para evitar o perigo de contágio, algumas instituições iriam restringir até mesmo a entrada dos próprios pais. “Consegui visitar meu filho pela primeira vez 110 dias após o parto”, conta Luana Vieira, 23 anos, de Itapajé (CE), um dos casos mais extremos registrados, logo no início da pandemia. Nicolas nasceu em 10 de abril de 2020, com 30 semanas de gestação, pesando 615 g, em um hospital público de Fortaleza. Recuperada da cesariana de emergência, Luana foi comunicada que só veria o filho no dia da alta. “Consegui espiar por uma fresta na cortina da janela da UTI. Só pude ver o pezinho dele, do tamanho do meu polegar. Fui embora chorando, desesperada”, lembra. Três meses se passaram com ligações diárias ao hospital. A equipe enviava fotos e vídeos para amenizar a dor e a distância. Quando Nicolas atingiu 1,5 kg, autorizaram o adiado encontro entre mãe e filho. “Tive medo de que ele não me reconhecesse, não soubesse quem eu era”, diz. A visita seguinte foi apenas no dia da alta, quatro meses após o parto – quando então o pai também conheceu seu bebê.

Histórias assim foram frequentes em diversos países. Uma iniciativa global surgiu para evitar esse afastamento: a campanha “Separação Zero”, liderada pela European Foundation for the Care of Newborn Infants e pela Global Alliance for Newborn Care (Glance). Abraçada no Brasil pela ONG Prematuridade.com, a ação orienta instituições compartilhando evidências científicas. “Pai e mãe não são visitas. Estar junto é essencial para o desenvolvimento do bebê”, alerta Denise Suguitani, fundadora e presidente da instituição. “Está mais do que provada a importância da presença da família no processo de saúde do prematuro”, conclui.

Presença e afeto

Manter mães e bebês juntos, aliás, pode salvar mais de 125 mil vidas, estima a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estudo publicado na revista The Lancet destaca a necessidade de garantir que prematuros tenham contato próximo com os pais. O Ministério da Saúde publicou nota reforçando essa conduta. Para esta reportagem, conversamos com dezenas de diretores de UTIs, enfermeiras neonatais e famílias de prematuros de todo o país. A grande maioria segue a orientação de órgãos oficiais: afastamento do pai ou da mãe só em casos de suspeita ou confirmação de covid-19. “Meu marido começou a ter sintomas de gripe e já nos isolamos”, relata a dona de casa Ariane Aguiar Parodi, 26 anos. O filho do casal, Luan, nasceu com 28 semanas de gestação. “Fizemos o teste e deu negativo, mas, mesmo assim, pelo protocolo, permanecemos afastados por uma semana. Foi difícil ficar sem vê-lo, mas o hospital agiu corretamente”, diz a mãe.

Mas os desafios para as famílias de prematuros nesses tempos não param por aí. É mais do que sabido que o leite materno é o alimento mais completo para os bebês. Para os pequenos que chegam ao mundo antes do tempo, então, ele se torna ainda mais fundamental, já que, entre inúmeros benefícios, é composto por uma quantidade maior dos nutrientes de que a criança precisa, uma vez que o organismo materno se “ajusta” a essa necessidade. Porém, o que ninguém conhecia era se mulheres com suspeita ou confirmação de covid-19 poderiam amamentar. Na teoria, não há evidências científicas de transmissão por meio do leite materno – tanto a OMS quanto a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) consideram que os benefícios superam os riscos. Na prática, há uma série de orientações para garantir a segurança na lactação.

Assim como no Método Canguru – contato pele a pele que estreita o vínculo, reduz a dor e diminui o tempo de internação –, a mãe precisa estar de máscara e não só higienizar as mãos, mas também a área das mamas. No entanto, o maior desafio é quando surge algum sintoma. Aí, entram muitas mãos (com álcool em gel) para ajudar.

“Fazemos o que for preciso para que nenhum bebê deixe de receber o leite materno”, conta a pediatra Desirée Volkmer, coordenadora da UTI Neonatal do Hospital Moinhos de Vento (RS). E não é apenas modo de dizer. Para manter a taxa altíssima de aleitamento mesmo na pandemia, criou-se um drive-thru para receber o alimento. A lactante em isolamento domiciliar envia o leite e um integrante da equipe pega o conteúdo pela janela do carro e leva ao lactário. “Todos os bebês tiveram alta mamando da sua mãe”, diz.

Criatividade, aliás, é essencial para driblar as adversidades de uma UTI neonatal. E um olhar sensível para a dor do outro também. Na neonatologia, videochamadas se tornaram frequentes para conectar famílias e bebês.

Usar o telefone, é importante ressaltar, não é permitido, por esse aparelho carregar muitas bactérias. O aparelho passa por limpeza antes da entrada nas salas, mas só será manipulado rapidamente na hora de ir embora – afinal, toda mãe quer um registro digital do seu bebê para levar para casa.

Protocolo de segurança

E falando em ir para casa, o dia da alta é, sem dúvida, o mais aguardado. Porém, junto à comemoração surgem dúvidas sobre como agir fora do ambiente hospitalar. “Em resumo, é preciso cuidar da transmissão de doenças respiratórias o que, com a pandemia, todos já sabem como fazer”, define o infectologista pediátrico Marcelo Scottá, professor-adjunto do Núcleo de Pediatria da Escola de Medicina da PUC/RS.

Nos primeiros três meses depois da alta, o ideal é preservar ao máximo o bebê. Mas se realmente não puder evitar visitas, restrinja o número. Controle o tempo, exija o uso de máscara e a higiene das mãos – mesmo dos avós que já foram vacinados. Outra dica: nada de levar o bebê a locais cheios e sem ventilação, como restaurantes e shoppings. E em casa, mantenha o ambiente arejado. É bom seguir assim, com cautela, até os 6 meses. Depois, o pediatra deve avaliar a criança para saber quando “liberar” mais.

Vale destacar que essas precauções protegem de outras ameaças respiratórias. “O distanciamento diminuiu a circulação de outros vírus, como o da bronquiolite e da síndrome gripal”, diz. E como todo cuidado é pouco quando se fala em bebês e, especialmente, em prematuros, não custa ser extremamente prudente e resguardar o pequeno e a família em tempos de covid-19, conclui Scottá.

Rede de apoio virtual

Para além da atenção com os bebês, é preciso que os pais se acolham também. Seja antes, durante ou depois de levar o filho para casa, muitas emoções acompanham as famílias nessa jornada. “Bebês prematuros nascem em uma condição que não foi a idealizada/desejada por elas. É natural que esse contato seja atravessado de estranhamento”, reflete a psicóloga Patrícia Bader. Mesmo diferentemente do que foi imaginado na gravidez, estar junto do bebê é dar chance ao encontro. “Aceite ajuda da equipe institucional. Busque apoio para reorganizar sua condição materna”, aconselha.

A vivência da prematuridade mexe com a saúde mental. Na falta de apoio físico, recorra ao virtual. A associação Prematuridade.com oferece atendimento psicológico gratuito para pais de bebês nascidos na pandemia. E não é à toa que muitas famílias se valem dessa e de outras conexões online, como grupos em redes sociais, para receber acolhimento. “É da competência humana ressignificar acontecimentos traumáticos. E um dos caminhos é transformá-los em experiências compartilhadas”, reforça Patrícia. São milhares de colos possíveis. Afinal, uma mãe de UTI entende a dor de outra mãe de UTI. Só pelo olhar. Que bom que as máscaras deixam justamente os olhos de fora.

DEPOIMENTOS

"SÓ SENTI O CHEIRINHO DAS MINHAS FILHAS APÓS 4 MESES"

“Engravidei de trigêmeas com fertilização in vitro, tive uma gestação tranquila, e fiquei bastante em casa. Ainda assim, entrei em trabalho de parto prematuro, não deu para segurar. As bebês nasceram em 20 de janeiro deste ano, com 23 semanas e seis dias. Na primeira vez em que pisei na UTI, achei que nenhuma sobreviveria. Tive vontade de sair correndo de tanto medo. Lorena não resistiu: nasceu com 520 g e viveu oito dias. Por muito tempo, senti pavor de perder Catarina e Selena, que nasceram com 610 g e 658 g. Olhava os outros bebês e os achava enormes! Encontrei forças conversando sobre as dificuldades na sala da ordenha. Tirar leite virou minha terapia. Demorou até eu pegar as gêmeas no colo. Foi emocionante e apavorante, pois a saturação delas caía, e o monitor apitava. Fomos ao hospital todos os dias. Com dois bebês, pai e mãe podem ficar juntos ao mesmo tempo. E consegui ter leite até elas pegarem o seio. No total, foram 137 dias de internação. Só senti o primeiro cheirinho das minhas filhas após quatro meses, ao chegar em casa e tirar a máscara. Um momento tão simples que foi tão adiado.”

Lisandra Magnus Eltz, 30 anos, pedagoga

 

"MEU MARIDO SÓ PODE VISITÁ-LO UMA VEZ POR SEMANA"

“No primeiro ultrassom, descobri que estava grávida de um bebê grande. Dois meses depois, o exame mostrou dois meninos. O médico não tinha visto a outra cabecinha e achou que era um ‘supernenê’. Primeiro, bateu o pavor de trazer duas vidas em plena pandemia, depois, ficamos felizes. Por causa de uma pré-eclâmpsia, os meninos nasceram de cesariana, em 10 de abril. Vicente, com 620 g, sobreviveu oito dias. Silvinho, com 1.180 g, segue internado, lutando pela vida. Vou à UTI todas as tardes, pois ficar o dia todo é muito gasto. Meu marido só o visita uma vez por semana, por regra do hospital. Todo domingo ele entra, mas se entristece por não poder ficar mais. Vou ao Banco de Leite ordenhar, mas não tenho muito. Hoje [dia das fotos] foi a primeira vez que Silvinho mamou no peito. Estou sempre lavando as mãos, trocando máscara, passo álcool o tempo todo. Só pego o celular na hora de ir embora, tiro uma fotinho e saio. Em casa, de madrugada, às vezes, acordo ouvindo os barulhos dos aparelhos. Minha vida agora é acompanhar ansiosamente aqueles apitos e números, e esperar o dia da alta.”

Fabiane Pacheco, 37 anos, autônoma

 

* Reportagem para a revista Crescer de AGOSTO realizada com apoio do programa Early Childhood Reporting Fellowship: Desigualdade e Covid-19 no Brasil, Venezuela e Colômbia, do Dart Center/Columbia University.

*A repórter acompanhou internações nas UTIs neonatais do Hospital Moinhos de Vento e do Hospi tal Materno-Infantil Presidente Vargas, em Porto Alegre (RS), entre maio e junho. O acesso para fotos ocorreu após testes de covid-19, e seguiu todos os protocolos sanitários das instituições.

Fotos: Ana Meinhardt, Cegonha Imagens

Fonte: Revista Crescer



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